Como Kings of Leon lançou o melhor álbum da carreira após crises e quase fim da banda


Ao G1, vocalista fala da dificuldade de ser líder da banda. ‘Pegar guitarra, arriscar uns acordes e cantar não significa que frequentei uma escola para aprender como ser um bom orador’. Líder do Kings of Leon fala sobre novo álbum e tatuagens no Brasil
Caleb Followill riu três vezes em pouco mais de dez minutos de entrevista ao G1. Em uma conversa por Zoom, direto da cidade americana de Nashville, o líder do Kings of Leon mostrou que está mais leve e menos impassível. Para os padrões dele, claro.
O vocalista e guitarrista de 38 anos está em boa fase, após uma luta contra a dependência de álcool e treta com os outros três integrantes, dois irmãos e um primo.
No papo abaixo, Caleb lembrou das vindas ao Brasil (a primeira, em 2005, rendeu duas tatuagens no peito feitas numa madrugada). Ele também disse que não é um frontman comum, que se expressa bem.
“Por mais que eu queira ser forte o suficiente para ficar firme ali e falar, eu sempre fui mais um ouvinte do que um falador.”
A banda Kings of Leon
Divulgação/Sony Music
G1 – Como é lançar um álbum sabendo que vocês não poderão sair em turnê agora?
Caleb Followill – Ah, é um pouco estranho, sabe? Essa é uma parte do processo com a qual a gente já estava bem acostumado. Então, eu sinto que quando estamos escrevendo, você já começa a visualizar como ela será ao vivo. E agora eu acho que a gente tem mais tempo para pensar nisso. É estranho, porque somos uma banda de turnê. Então, a gente mal pode esperar por sair por aí…
G1 – Você fez as músicas bem antes da pandemia e dos protestos contra o racismo nos EUA. A gente meio que viveu 10 anos em dois. Então, como é ver as letras ganhando novos significados por causa do atraso no lançamento?
Caleb Followill – É, eu penso muito que as letras estão ganhando outro significado, um significado bem mais profundo porque agora elas parecem uma reação ao que está acontecendo com o mundo. Eu fico muito empolgado que as letras podem agora impactar as pessoas de uma forma diferente do que se elas tivessem sido lançadas antes disso tudo.
G1 – Os críticos americanos, britânicos e do Brasil estão usando expressões como autoexame, autoanálise e autoconsciente para falar sobre o álbum. Você sentiu que estava fazendo isso?
Caleb Followill – Sim, é uma reflexão. Eu acho que reflexão é algo que com certeza tem a ver com esse álbum. Antes de a gente tocar qualquer música, teve um momento de reflexão na banda, porque é nosso oitavo álbum. Não tem tanta gente que pode dizer que teve a oportunidade de fazer um álbum, imagina então oito.
REVIEW: Kings of Leon faz rock épico com reflexões sobre o tempo
A gente olhou para a nossa carreira, olhou para o que a gente fez e como a gente poderia ir além e manter os outros animados, conquistar novos fãs. Houve esse ato de nos olharmos no espelho e tentar entender o que a gente queria dizer. Eu senti como se minha vida saísse de mim por meio da música. Foi como expor essas pequenas veias aqui e ali, de um cara que vive aqui neste corpo.
Kings of Leon
Divulgação
G1 – Você escreveu ‘Supermarket’ dez anos atrás. Por que colocá-la agora no álbum?
Caleb Followill – É uma dessas músicas que quando eu escrevi saiu de dentro de mim assim que eu disse “vai”. Então, eu tentei incluí-la em álbuns vários anos. Em provavelmente três ou quatro álbuns. Mas a versão que eu estava fazendo era só eu e a guitarra, era uma coisa um pouco mais cantor-compositor solo. Então, ela quase nunca combinou com as músicas que a gente estava fazendo naquelas eras.
Mas aí algo aconteceu, algum tipo de mágica… eu acho que o Jared [Followill, baixista] estava tocando algo e eu falei: “quer saber, vou tirar a letra dessa música pelo menos e botá-la em uma melodia diferente”. Quando eu fiz isso, funcionou. E claro que essa é uma letra que sobressai, sabe? “Eu vou a lugar nenhum se você tiver um tempo”. São letras que parecem ser sobre essa era de agora, ou sei lá. Eu senti que essa era a hora que as pessoas gostariam de ouvir.
G1 – Falando de shows no Brasil, eu estive em alguns deles, então o que você lembra? Teve, por exemplo, aquela turnê com o Arcade Fire e Strokes… teve Lollapalooza. O que você pode me contar sobre esses shows brasileiros?
Caleb Followill – Os brasileiros gostam de se divertir. Eu acho que a gente adora se divertir também. Então, é… Eu tenho histórias que eu posso te contar e outras que não posso te contar…
“Vamos dizer que um dia eu acordei com duas tatuagens no meu peito. E isso aconteceu só porque eu estava me divertindo no Brasil. Essas tatuagens ainda estão aqui no meu peito.”
Caleb Followill canta no show do Kings of Leon no Lollapalooza 2019
Fábio Tito/G1
G1 – Falando dos fãs brasileiros, eu já conversei com muitos deles e eles ficaram muito preocupados com a possibilidade de a banda se separar ali por 2010, 2011. Como vocês quatro estão agora e o que você pode dizer aos fãs sobre isso?
Caleb Followill – Sim. É eu acho que é uma dessas coisas, eu não sei porque as pessoas sempre… Eu acho que as pessoas estavam tão acostumadas a ver bandas formadas por família acabando. A gente não tem planos de se separar tão cedo. Eu acho que a gente está bem.
Os Kings estão em boa forma agora. Essa é a nossa vida e não é algo do qual a gente vai fugir. A gente não cresceu com muito dinheiro ou muitas garantias. A gente não tinha muitos parentes fazendo coisas impressionantes. Então o fato de termos essa oportunidade, sabe, a gente não vai jogar isso fora. Então, é… eu acho que vai ter um nono álbum.
G1 – Vocês têm fãs bem diferentes no Brasil. Há senhoras mais velhas, como a minha mãe, que gostam das músicas mais românticas, das mais lentas, curtem a sua voz. E há os mais novos, os mais hipsters, que gostam do começo da banda… E tem aqueles… aquela massa, um monte de gente que curte o que é mais mainstream, as coisas de rádio. Como é tentar agradar todos esses tipos de fãs?
Caleb Followill – É algo que você sempre tem no fundo da sua mente, mas você tem que garantir que fique no fundo da sua mente e não na frente. A gente faz música para a gente mesmo, é uma forma de expressar. São momentos em que a gente reflete sobre nosso passado. Música é uma coisa engraçada, sabe?
Eu acho que se a gente tivesse tipo um algoritmo e tentasse entender o que as pessoas querem da gente, acho que a música seria impactada negativamente por isso. A gente espera que as pessoas que gostam das coisas do nosso começo nos acompanhe nessa jornada. A gente ainda curte o que a gente faz.
Mas eu não espero isso das pessoas, porque eu sinto algo parecido: muitas vezes, as músicas do começo de uma banda são o que eu amo, porque tem uma energia crua e uma inocência naquilo. Então, entendo tanta gente gostar desse aspecto nosso. E eu com certeza entendo porque sua mãe gosta de me ouvir cantar [risos].
Caleb toca com o Kings of Leon em São Paulo em novembro de 2014
Flavio Moraes/G1
G1 – Como você se sente sendo um frontman e tendo que dar entrevistas para muitos jornalistas de todo o mundo… Eu sei que você é um fã de filmes de faroeste (com protagonistas calados, sérios). E você é mais do tipo que não fala muito, você é direto, sério. Então, como lidar com tudo isso?
Caleb Followill – A gente sai em turnê com bandas de antes em que o frontman ficava feliz em ser o frontman, tomar posições e abordar o que está acontecendo no mundo. Esse não sou eu. Por mais que eu queira ser forte o suficiente para ficar firme ali e falar, eu sempre fui mais um ouvinte do que um falador. Acho que tem essa pressão a mais, uma responsabilidade, se você preferir, em alguém com o microfone hoje. Tem tanta m… acontecendo que você tem que ir lá e falar.
“Então, o fato de eu pegar uma guitarra, arriscar uns acordes e cantar uma canção não me deixa… não quero que as pessoas pensem que isso significa que eu frequentei uma escola para aprender como ser um bom orador em público, abordando a política no mundo.”
Mas, sim, tem coisas pelas quais eu sou apaixonado e eu tento falar o tanto que consigo. Mas eu me senti que gosto mais de ouvir do que de falar hoje.
G1 – Obrigado Caleb, espero vê-lo no Brasil quando tudo isso acabar…
Caleb Followill – Sim, eu preciso de novas tatuagens. Tchau!
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Source: G1 Pop e arte

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